segunda-feira, março 30, 2009

Previsões

Nosso Livingstone Econômico pede que eu comente sobre o artigo do Kanitz sobre um comentário do Delfim Netto. Se eu concordo que as previsões que saem no jornal são meros chutes. Sim, claro. 99.9% das previsões publicadas na mídia são totalmente sem fundamentos quantitativos. Bom, a maioria absoluta dos comentários econômicos de jornais são totalmente subjetivos e ninguém deveria apostar seu dinheiro nisso.
Mas discordo de todo o resto. Primeiro existem leading indicators confiáveis (aliás existe uma literatura monumental sobre isso - de Stock e Watson, Hamilton, os artigos da Marcelle Chauvet, do João Victor Issler e seus co-autores, etc, etc). Mas tenho certeza que a maioria dos comentaristas de jornal jamais tenha lido algo a respeito, ou se importado em pesquisar sobre o assunto. Então na literatura econômica existem leading indicators confiáveis, embora com variabilidade elevada como seria esperada em previsões de longo prazo.
E discordo totalmente sobre a colocação do Kanitz de que não se deveria publicar as previsões de economistas em jornais. O que deveria ser bastante ponderado são as previsões de "economistas" que não são baseadas em nenhuma análise quantitativa, e na verdade apenas reproduzem a média das opiniões. Previsões baseadas em modelos, como por exemplo as previsões derivadas dos modelos do Banco Central são uma ferramenta importante de decisão.
O problema de modelos de previsão é que eles refletem a informação observada até o tempo das previsões, e assim só são confiáveis se o modelo é robusto a mudanças na estrutura da economia, o que nem sempre acontece, em especial em momentos de crise (o que está relacionado ao conceito de super-exogeneidade), e assim é preciso testar a robustez do modelo nestas situações.
Outro ponto é que não se deve confiar no que os analistas dizem, mas sim no que eles efetivamente colocam seu dinheiro. Assim é muito mais confiável olhar para fontes como a estrutura a termo de taxas de juros como indicadores antecedentes (existe uma literatura importante que mostra que o spread é um antecedente de recessões) do que papo furado.
Informação subjetiva é importante, já que pode refletir informação não presente no histórico de dados (e para isso veja o sucesso de modelos de alocação como o modelo de Black-Litterman), mas para isso devem ser utilizadas técnicas que permitem incorporar esta informação nas previsões de uma forma consistente, como técnicas de Bayesian Forecasting.

5 Comments:

Blogger Claudio said...

"Mas tenho certeza que a maioria dos comentaristas de jornal tenha lido algo a respeito, ou se importado em pesquisar sobre o assunto."

Faltou um "não"?

6:13 AM  
Anonymous Anônimo said...

Quem è o Kanitz? Economista? Econometrista? Delfim Netto è o melhor economista do Brasil? Pessoal vamos a comentar coisa mais interessante.

7:22 PM  
Blogger Márcio Laurini said...

Anônimo

Independente da fonte dos comentários, o tópico é importante e vale um comentário sim.
Previsões são jogadas aos montes na mídia sem nenhum referencial.

7:34 PM  
Blogger JOÃO MELO said...

Professor Laurini, você como sempre conseguiu explicar com riqueza o que eu também assino embaixo. É claro que existem muitos colegas e/ou jornalistas na mídia que "chutam" números como quem conhece o futuro. Penso que além de não conhecerem bem Econometria e seus grandes mestres, estão mais interessados que suas idéias tornem-se realidade.
Vamos continuar trabalhando com previsões e modelos e verificando que podemos fazer muita coisa boa nessa área.
Gostei do David Livingstone da selva amazônica. Pena que já descobriram a nascente do Rio Amazonas. Senão...
Quanto ao "anônimo", primeiro eu não entendo quem se esconde. Onde posto comentário, minha foto está lá. Segundo, criticar tecnicamente Delfim e Kanitz num determinado ponto, claro que é positivo e merece mesmo atenção.
Abraço,
João Livingstone, direto da selva

8:11 PM  
Anonymous Anônimo said...

Do alto da minha "ignorância", acredito que o problema é que a imprensa confunde modelo probabilístico com determinístico. Quem quiser 99% de certeza de uma coisa, aceite um intervalo de possíveis resultados maior do que quem quer 90%...que é maior do que quem quer 80%...que é maior do que quem quer 70%. Estava eu um dia destes modelando a vendas de carros no Brasil via Arima com sazonalidade (o q é até um pouco forçar a barra), e mesmo levando em conta o mês de novembro de 2008 (no qual as vendas despencaram quase 40% em relação a outubro),a venda observada ficou dentro do intervalo de confiança de 99%.Enfim, a imprensa quer q os modelos façam algo impossível: querem um valor com 99% de probabilidade e não um intervalo de valores com 99% de chances de ocorrência.


Alisson Rocha

5:13 PM  

Postar um comentário

<< Home